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“MONK” File 003: A Escola É Feita Pra Quem

  • Foto do escritor: "MONK"
    "MONK"
  • 23 de fev.
  • 6 min de leitura

Atualizado: 23 de mai.



Ainda em clima de volta às aulas, podemos dizer que o File de hoje é praticamente uma edição especial. E bem especial.


No final de 2025, lançamos o primeiro volume da HQ Benji, em que apresentamos um personagem que prefere desenhar do que prestar atenção na aula de matemática – e está exausto de ser punido por conta disso.


Para nós, Benji levanta questões que vão além da HQ: educação, modelos de ensino, individualidade, escuta, liberdade criativa. Questões que ultrapassam as barreiras da ficção.


Por isso, decidimos ir mais fundo e conversar com alguém que tem propriedade para atravessar esses temas. Alguém que atua diretamente com o idealizador de um dos projetos educacionais mais provocadores e questionadores do modelo tradicional.


Há 15 anos, a educadora pedagógica Tina Carvalho faz parte da equipe do professor José Pacheco, idealizador da Escola da Ponte: uma escola pública, portuguesa, que desde os anos 1970 experimenta formas de aprender fora da divisão tradicional por séries, provas e currículos rígidos.


Ela topou nosso convite e a conversa foi acontecendo, sem pressa, sem roteiro fechado, deixando as perguntas conduzirem o caminho.


E a primeira delas é simples e um tanto incômoda:


1 — REGRA E DESVIO


“MONK”:

Tina, na HQ, Benji é repreendido por desenhar durante a aula. Esse gesto é lido como desvio, não como possibilidade.


Como, em geral, a escola tradicional passa a enxergar certos comportamentos como problema — e o que se perde quando isso acontece?


TINA:

Quando a escola tradicional passa a nomear certos comportamentos como problema, talvez o verdadeiro problema seja outro: a dificuldade de lidar com a diferença, com aquilo que não cabe na forma escolar. Ao repreender Benji por desenhar, a escola não corrige um desvio, ela interrompe uma possibilidade.


O que se perde quando isso acontece? Perdem-se artistas, inventores, pensadores. Perdem-se Picassos, Da Vincis, Mirós. Mas, mais grave do que isso, perde-se a chance de reconhecer que cada sujeito aprende de um modo singular e carrega uma potência que não se manifesta necessariamente pela subserviência.


Por que Benji está desenhando? Essa pergunta raramente é feita. É mais fácil rotular do que escutar. Talvez o desenho seja um gesto de sobrevivência diante de uma aula enfadonha. Desenhar, nesse contexto, pode ser resistência, uma tentativa de preservar a própria sanidade.


Uma pergunta para a escola: o que ela faz com aquilo que não controla?



2 — ESCUTA E AUTORIDADE


“MONK”:

Na história, o silêncio da sala não nasce da atenção, mas da ausência de escuta.


O que muda quando a escola passa a escutar de verdade seus alunos? E como essa escuta transforma a ideia de autoridade dentro da escola?


TINA:

O silêncio que habita muitas salas de aula da escola tradicional é o som da desistência. Desistência de perguntar e de se expor. Uma criança chega à escola falante, curiosa, insistente nos seus “por quês?”, mas, ao longo do percurso escolar, aprende algo preciso: a escola não é lugar de perguntas, é lugar de repetir respostas prontas.


Quando a escola passa a escutar de verdade, tudo muda. Um ambiente de escuta é, antes de tudo, um ambiente de respeito. E o respeito, quando se torna base das relações humanas, cria segurança para errar, para pensar, para aprender, para ser quem se é.


Nesse contexto, o silêncio ganha outro significado, deixa de ser imposição e passa a ser escolha. Torna-se gesto de cuidado, expressão de escuta mútua. A escuta verdadeira gera vínculo, e vínculo gera afeto. E o afeto não é acessório da aprendizagem, é um de seus ingredientes fundamentais.


Essa mudança também transforma profundamente a ideia de autoridade dentro da escola, que deixa de ser algo imposto pelo controle e passa a emergir de forma natural e sustentada pela confiança. Em uma escola humanizada, a autoridade não silencia, ela acolhe.


Quantos silêncios nas escolas são cansaço?



3 — SINGULARIDADE


“MONK”:

Benji não parece incapaz de aprender — apenas aprende de outro jeito.


Como lidar com alunos que não se adaptam ao ritmo, à forma ou à lógica predominante sem tratá-los como exceção ou problema?


TINA:

Benji não é incapaz de aprender, ele apenas aprende de outro modo. E talvez a pergunta mais honesta não seja “como lidar com quem não se adapta?”, mas “por que insistimos em um sistema que exige adaptação à custa da anulação de si?”


Confesso que, muitas vezes, sinto mais dor por aqueles que se adaptam à escola. São crianças que, muito cedo, aprenderam que para pertencer, precisam silenciar suas perguntas, conter seus corpos e aparar suas singularidades. Adaptar-se não é maturidade, é desistência.


As crianças que não se adaptam, ainda resistem. ainda lutam para ser quem são. São rotuladas, isoladas e muitas vezes medicalizadas, mas carregam algo precioso: a recusa em caber em moldes que não foram feitos para a diversidade humana.


Quantos talentos são encapsulados todos os dias para evitar o sofrimento dentro de um sistema educacional que mais se assemelha a uma linha de montagem de fábrica, desenhada para produzir um único tipo de sujeito?


Como nos lembra o professor José Pacheco, deficiente não é a criança cadeirante, é a escola que não tem rampa. O problema não é a criança que se movimenta, que desenha, que questiona, que aprende em outro ritmo ou por outros caminhos, o problema é uma escola adoecida, aprisionada a um sistema padronizado e excludente para muitos.


Enquanto tratarmos a diferença como exceção, continuaremos produzindo exclusão.



4 — ENSINAR E DESAPRENDER


“MONK”:

Fala-se muito em inovação na educação, mas pouco em desaprender.


A partir da experiência da Escola da Ponte, o que a escola tradicional talvez precise deixar para trás para que aprender volte a ser um processo vivo?


TINA:

Esta resposta precisa começar com Rubem Alves quando conheceu a Escola da Ponte: sendo convidado por uma menina de cerca de dez anos a esquecer tudo o que sabia sobre escola para, então, conseguir compreendê-la.


Esquecer a escola das séries, das turmas, das provas, das aulas. Esquecer a lógica da fila, do silêncio imposto, das respostas padronizadas. Na Escola da Ponte, não há aulas como conhecemos e justamente por isso, há muita aprendizagem. Uma aprendizagem viva, que nasce do encontro da curiosidade, com responsabilidade partilhada.


Uma educação onde o centro não é o conteúdo, nem o ensino, o centro são as relações humanas, pautadas pela autonomia com responsabilidade, a solidariedade como valor vivido e não apenas anunciado. Aprende-se porque faz sentido, porque há pertencimento, porque alguém acredita em você.


Se eu tivesse que destacar um único ponto que a escola tradicional talvez precise deixar para trás, diria: a ensinagem. Enquanto a escola insiste em priorizar o ensino, o sujeito aprendente, vai sendo anulado. Quando a escola ajusta o foco para a aprendizagem, como ela só acontece com afeto, tudo tende a se reorganizar.


Aprender é um processo complexo de desenvolvimento de potencialidades individuais, um movimento vivo, humano e imprevisível. Talvez entender isso, seja o gesto mais radical e mais urgente de inovação que a escola precisa fazer.



5 — A ESCOLA É FEITA PRA QUEM


“MONK”:

Há uma última pergunta que atravessa tanto a HQ quanto este File.


Para quem a escola tem sido pensada?

E quem costuma ficar de fora quando ela se organiza a partir de padrões únicos?


TINA:

Para quem a escola tem sido pensada? Confesso que não sei. Talvez para um aluno idealizado: quieto, obediente, com boa memória de curto prazo, capaz de repetir aquilo que já foi pensado. Um aluno que não questiona, que copia da lousa, decora a apostila e devolve exatamente a resposta esperada nas provas. De preferência, sem pensamento crítico, sem curiosidade e sem criatividade.


Ficam de fora os inquietos, os curiosos, os criativos, os que pensam por imagens, os que precisam se mover para aprender, os que fazem perguntas demais. Ouso dizer que torço para que muitos não se adaptem. Torço para que resistam, para que lutem por manter sua sanidade, sua inteligência viva, sua singularidade intacta.


Como nos lembra Jiddu Krishnamurti, “não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade profundamente doente”.



Nosso agradecimento à Tina, pela disponibilidade e qualidade dessa troca.


O Benji nasceu justamente desse tipo de conversa — aquelas que geram ainda mais questões.

Se ainda não leu Benji - Vol. 1, ele segue por aqui:



Até o próximo File.



Pra não perder os próximos

"MONK" FILES.


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